Enfermeiras contam tudo sobre médicos

Relato é de médica, no jornal americano “New York Times”.
Relação entre médicos e enfermeiras é descrita como “estimulante”.

Abigail ZugerDo ‘New York Times’

Quase nada sobre medicina passa despercebido hoje em dia. Uma exceção, estranhamente, é um aspecto que costumava estar no centro da atenção: a sempre estimulante relação entre médicos e enfermeiras. 

De Cherry Ames ao Dr. Kildare, o pessoal nos firmes uniformes brancos já valsou para oferecer grande diversão a todos. Algumas análises acadêmicas sérias daqueles dias confirmaram os jogos sexuais intensamente estereotipados e as complicadas jogadas de poder sustentando mesmo as mais triviais interações médico-enfermeira. 

Agora, obviamente, tudo isso mudou, com a enfermagem estabelecida como uma poderosa e instruída profissão, com o fim dos estereótipos machistas, a diminuição das disparidades salariais e as descrições de função se sobrepondo. 

Mas será que mudou de verdade? Sabemos disso com certeza? Na teoria, médicos e enfermeiras estão se dirigindo a um feliz paraíso de igualdade, colaboração e respeito mútuo. Entretanto, conhecendo a natureza humana, pode-se pensar se não estaríamos antes condenados a vencer uma confusa era de reconstrução com um progressivo abuso mútuo, enquanto todos os lados lutam para recuperar sua condição. 

Enquanto isso, não há muitos relatórios vindos do campo. Pode apostar que nenhum médico por aí está planejando publicar um manuscrito intitulado “Reflexões sobre Enfermeiras” muito em breve. Suponho que meus colegas concordem que tal projeto seria melhor se deixado para a aposentadoria em algum lugar num distante atol no Pacífico, onde o carteiro nunca aparece. 

É duro dizer o que geraria mais cartas de ódio: delinear alguns dos piores atendimentos de enfermagem que o presente sistema oferece, ou buscar pelas palavras exatamente certas para descrever os milagrosos melhores. “Sagrado,” “altruísta” e “devotado” possuem tons paternalistas e condescendentes. “Profissional” soa frio demais. Há um limite para quantas vezes se pode usar “fabuloso” em apenas um artigo. É melhor não falar nada, dizemos nós, os covardes. 

Mas as enfermeiras são feitas de algo mais austero. Em “Reflexões sobre médicos,” elas produziram algo bastante extraordinário em recente escritas médicas: uma compilação de 19 breves ensaios meditando sobre as relações atuais entre as espécies. O livro vem da editora Kaplan Publishing, cujos direcionamentos atingem profissionais aspirantes da preparação para licença do SAT (exame educacional padronizado dos EUA), e aparentemente pretende preparar novas enfermeiras para o terreno. 

Ele o faz não por teoria mas por anedota: essas autoras falam mais das trincheiras do que de escritórios ou salas de aula, e enquanto algumas são escritoras por vocação, poucas podem exibir qualquer coisa no sentido de estilo literário. Ainda assim, suas histórias casuais oferecem uma perspectiva consideravelmente ampla sobre o assunto. 

Karen Klein relata as duas ocasiões no curso de uma carreira quando ela se recusou a acatar as ordens de um médico. Na primeira vez ela recebeu sinceras desculpas quando seu julgamento se provou correto; na segunda, por um julgamento igualmente correto, ela recebeu apenas uma marca de mão feita de sangue nas costas de seu uniforme assim que o irritado médico a empurrou na direção do trabalho recusado. 

Uma marca de mão altamente simbólica que, em mãos literárias mais autoconscientes, poderia ter se transformado numa bela metáfora. Essa enfermeira apenas espera que o médico “tenha buscado a ajuda de que precisava.” 

Outras histórias são similarmente triviais. Cara Muhlhahn, uma enfermeira-pré-natal de Nova York, descreve um complicado parto residencial com o cordão umbilical no pescoço: “Opa! Mais uma cesariana desnecessária evitada graças a uma excelente supervisão clínica e uma ótima colaboração com os médicos.” Paula Sergi, enfermeira da saúde pública, escreve sobre o médico viciado em trabalho com quem acabou se casando, “a pessoa por trás da mulher que se ocupa sozinha de funções sociais.” 

Anna Gregory, uma enfermeira de saúde ocupacional, reflete tristemente sobre seu instável arco de carreira: como enfermeira, ela cada vez mais fez “o trabalho do médico”; agora, estudando para ser médica, ela receia que, quando terminar, “todos os médicos terão sido substituídos por enfermeiras.” 

Na Kosovo destruída pela guerra, uma atualizada equipe de jovens médicas e enfermeiras reclama quando uma pediatra idosa da Albânia se junta a elas, apenas para se tornarem cativadas a despeito de si mesmas pelo grande talento clínico da velha senhora. 

Cada história representa um passo para compreender as inerentes diferenças que separam as profissões. Trabalhando como enfermeira de reabilitação, Mindy Owen tropeça numa das grandes ao cuidar de um adolescente tetraplégico, vítima de um acidente de carro. Ela fica emocionada com uma foto do garoto com seu antigo time de basquete, e a mostra ao médico responsável. “Nunca mais faça isso,” diz ele secamente. Apenas então ela percebe que o médico recebe a foto como uma reprimenda, uma mensagem de que como ele não conseguiu “consertar” o paciente, ele falhou. 

A enfermagem é intensamente baseada na realidade; a medicina, muitas vezes, nem tanto. “Foi a primeira vez que eu realmente compreendi a filosofia de alguns médicos,” escreve a enfermeira, “ e a definição de fracasso para eles.” 

Essas enfermeiras desprezam os médicos preguiçosos e arrogantes que atravessam seu caminho (alguém pode pensar se a enfermeira moderna, com mais poder, extrai um comportamento ainda pior desses médicos do que fazia o antigo modelo subserviente). Elas adoram os exemplares perfeitos que passam intermináveis horas com pacientes de doenças crônicas e depois vestem alegremente a roupa de Papai Noel na festa de natal. 

Em sua maioria, entretanto, elas escrevem em tons de cinza, descrevendo interações e relacionamentos incolores, corteses, corporativos. Você poderia até chamá-los de maçantes. Eles não dariam um minuto de boa televisão. Por outro lado, você pode conseguir uma boa assistência médica. 

Leia mais notícias de Ciência e Saúde 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: