Gene faz com que negros sejam ‘imunes’ a remédio para problemas cardíacos

Quase metade de doentes de origem negra não respondem aos beta-bloqueadores.
Variante de DNA faria com que pacientes produzam sua própria versão do remédio.

Gina Kolata Do ‘New York Times’

Médicos que tratam de pacientes com insuficiência cardíaca há tempos ficam intrigados com uma observação peculiar. Muitos pacientes negros parecem reagir à terapia baseada em um tipo de drogas chamadas de beta-bloqueadores da mesma forma como reagem quando não estão tomando nenhum medicamento. É quase como se eles fossem imunes às drogas.
Agora, pesquisas realizadas na Universidade de Washington e na Universidade de Maryland (EUA) descobriram o porquê: esses pacientes não-responsivos têm uma versão levemente alterada de um gene que os músculos usam para controlar reações a sinais nervosos. Pessoas com esse gene alterado estão produzindo o que equivale a seus próprios beta-bloqueadores o tempo todo. Quarenta por cento de negros e 2% de brancos têm essa variação genética, demonstram os estudos.
Essas descobertas, afirmam especialistas em insuficiência cardíaca, significam que pessoas com o gene alterado podem ser poupadas de tomar o que pode ser, para eles, uma terapia inútil. E, como pacientes com insuficiência cardíaca normalmente tomam diversas drogas, que podem interagir e causar efeitos colaterais, eliminar uma droga que não está ajudando pode trazer um enorme benefício.

 

 Inédito

Esta é a primeira vez que se descobriu um efeito genético como esse, diz Stephen Liggett, pesquisador da Universidade de Maryland e um dos autores do estudo. “Conceitualmente, é uma grande surpresa”, afirma Liggett. Igualmente surpreendente é saber o quão comum é esse gene alterado, especialmente em pacientes negros. “Algo que ocorre em uma freqüência de 40% não é como um pontinho na tela do radar”, diz Dr. Gerald W. Dorn, cardiologista da Universidade de Washington e pesquisador-chefe do estudo. “Isso pode ter dado uma vantagem de sobrevivência [aos portadores do gene].” Mas ele ainda não tem idéia sobre que essa vantagem seria essa.
A descoberta levanta questionamentos sobre quem tratar com beta-bloqueadores e como tomar essa decisão, afirmam os pesquisadores. Porém, eles acrescentam, suas implicações vão além da insuficiência cardíaca.
Por exemplo, a variação do gene pode explicar porque algumas pessoas saudáveis não podem se exercitar vigorosamente – eles podem estar produzindo substâncias que agem como beta-bloqueadores, fazendo com que seu coração bata com menos força. E variações em outros genes podem explicar porque algumas pessoas com condições diferentes, como depressão, não respondem às drogas usadas no tratamento. É possível que essas pessoas estejam produzindo suas próprias versões de antidepressivos, e adicionar mais quantidade deles pode não ajudar.

 

 Invulneráveis?

No entanto, pesquisadores afirmam que pessoas que produzem seus próprios beta-bloqueadores não estão protegidas de desenvolverem insuficiência cardíaca. Isso acontece porque beta-bloqueadores são úteis somente depois que a doença está estabelecida. E beta-bloqueadores podem retardar o progresso da doença, mas não curá-la.
O estudo começou com a indagação dos próprios pesquisadores sobre as formas como os pacientes com insuficiência cardíaca reagiam, ou não, a beta-bloqueadores. Na insuficiência cardíaca, o coração não consegue mais bombear sangue eficientemente e aumenta, na tentativa inútil de solucionar o problema. Como o coração continua se enfraquecendo, fluidos se acumulam nos pulmões e os pacientes ficam sem ar, a ponto de não poder nem caminhar no quarto. O problema é difícil de tratar, e a maioria dos pacientes acaba tomando quatro ou cinco drogas e, quase invariavelmente, um beta-bloqueador.
A idéia de usar beta-bloqueadores parecia radical quando foi sugerida há mais de duas décadas. As drogas enfraquecem a reação do coração aos hormônios epinefrina e norepinefrina. Moderar a resposta do coração a esses hormônios acabou ajudando, ao dar ao órgão um descanso da inundação de epinefrina e norepinefrina. Pacientes que tomaram a droga viveram duas vezes mais tempo.
“Os beta-bloqueadores são a melhor coisa que já aconteceu para a insuficiência cardíaca”, diz Liggett. Mas o efeito das drogas pareceu maior em alguns pacientes, e em alguns negros, em particular, pareceu não surtir efeito nenhum.  

 

 Genética

Depois de estudar o efeito do gene variante em experimentos em laboratório e com ratos, os pesquisadores observaram 375 pacientes negros com insuficiência cardíaca. Os pesquisadores perguntavam se os pacientes tinham o gene variante e, se sim, como isso afetava dois aspectos principais de sua doença: quanto tempo passava até que seu coração enfraquecesse tanto que ele correria risco de morte se não fosse feito um transplante, e quanto tempo eles viveriam depois de receber o diagnóstico de falência cardíaca.
Aqueles que tinham o gene variante, afirmam, não se beneficiaram de tomar beta-bloqueadores, não havendo diferença se eles tomassem as drogas ou não. Ainda assim, os especialistas não têm certeza se a evidência é suficiente para alterar a prática médica. Isso significaria testar pacientes negros com insuficiência cardíaca para saber se eles têm o gene e, em caso positivo, não prescrever beta-bloqueadores. Ainda assim, os pacientes teriam de tomar cerca de meia dúzia de outras drogas para ajudar a controlar a doença e seus sintomas.
Pelo menos Liggett está pronto para mudar sua prática. Ele pode não administrar beta-bloqueadores para pacientes com o gene variante, afirma, e pode suspender a droga de pacientes com o gene variante se eles estiverem enfrentando problemas com efeitos colaterais. No entanto, Dorn diz que é necessário pesquisar mais. Mesmo se beta-bloqueadores não ajudaram pacientes com o gene nos dois resultados que foram medidos, é possível, diz ele, que as drogas estejam conferindo outro benefício.
Dr. Michael Bristow, professor de medicina e cardiologia da Universidade do Colorado, diz que a descoberta de um gene pode ajudar a desenvolver drogas que fazem o mesmo que beta-bloqueadores, mas de uma forma mais eficaz. “Você tenta tirar vantagem de observações naturais e feitas quase ao acaso, aprendendo com elas”, disse Bristow. E acrescentou que, de qualquer forma, a descoberta simplesmente o fascina. “Em quase todas as doenças, diferentes pessoas lidam de forma diferente e têm respostas diferentes”, ele disse. “Aqui temos uma explicação sobre por que um grupo pode ter tido uma resposta melhor.”

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